"Quem era o senhor
Quando Adão arava
E Eva fiava?"
Ainda em Avaricum, foi-me apresentado por Woodcock uma figura muito singular: Max Testa Larga. Nosso colega Max tinha uma feição meio tola, um riso estranho. Nos grupos de discussão ficava sempre a observar, com seu riso irônico, e sem palavra alguma proclamar.
Quando estávamos em três, o poeminha de John Ball foi o que primeiro ouvi sair de sua boca. O assunto era obviamente política. E sobre as idéias dos homens para controlar os demais, Max tinha concepções encantadoramente singulares. Seria a vida um “eterno e amoral conflito de vontades”. Por vezes louvava o crime e o assassinato, no alto de seu egoísmo. Negava a razão e conceitos abstratos e gerais como homem e humanidade.
A propriedade devia ser o que pela força, um homem conseguia manter. Nada de governo ou Estado. Democracia? Absurdo eu repassar minha soberania a um estúpido para fazer inbecilidades em meu nome. Só eu tenho esse direito, minha vontade é soberana, pouco importa o coletivo. Um mundo perfeito seria mais ou menos como uma guerra fria em que cada um poderia destruir a todos e, regidos pelo medo, seríamos livres. A liberdade: nada mais lindo que ser regido pelas leis da necessidade. Poderia se pensar em uma União dos Egoístas, em que eu usaria o outro de acordo com meu usufruto. E não precisando mais, jogo-o fora, pois só satisfazer minha vontade é importante. Seria a inversão do Estado, usurpador intolerável.
Incrível como um sujeito como esse pode pensar tanta inutilidade. Um homem bobo e pacato, a ensinar lições a senhoras de bem em Avaricum. Um sonso, sempre a sorrir criticamente e em nada participar ativamente. Um fracasso, que nada conseguiu em termos econômicos e, muito menos, intelectuais. Um homem de passar, a repassar suas idéias primitivas. Um homem que se dava bem com todos, mas que amigo algum tinha. Esse é o Max, “meu irmão; meu igual”!

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